Os Montadores de bodes

Por Ben Lindekens

No ano de 1772, o cirurgião Josef Kirchloffs morreu enforcado após ter sido torturado sete vezes. Sobre ele pesava a acusação de ser um montador de bode. Até hoje os historiadores ainda não conseguiram estabelecer a verdadeira importância dessa seita secreta que agia nos Países Baixos, incendiando a imaginação popular. Sabe-se, através dos processos da inquisição – que, além de serem iniciados e pactuar com o diabulus, eles desenvolveram uma ação política comparável à dos revolucionários franceses.

Há dois séculos eles passam velozmente, montados em bodes pretos, durante as noites, para matar e roubar. Pelo menos era assim que se passava na imaginação dos povos e em seus contos. Ainda hoje esses contos de horror sobre os montadores de bodes, como os de Lumburgo e de Rynland, encontram grande número de leitores. Eles aparecem sempre em bandos sanguinários, praticando diabruras e crimes terríveis.

Com o tempo adquiriram cores bem folclóricas. Nas festas, passeiam sobre vilarejos onde antigamente eram temidos, como os vilarejos de Herzhogenrath e wellen. Mas, nos arquivos, não são mais encontrados os manuscritos sobre o assunto. Restam poucas informações sobre esses montadores de bodes – figuras que povoaram um mundo como o de Jeronimus Bosch. Montadores de bodes: um nome alucinante. Sugere intercâmbio com os demônios obedientes, parte humanos parte animais, provavelmente símbolos arquétipos, pertencentes a um outro mundo, galvanizado pela magia.

A partir do século 19 teve início uma pesquisa relativa à realidade existente por trás das lendas. Pesquisadores da Holanda, Bélgica e Alemanha encontraram então nos jornais e nos processos um tesouro de informações sobre o assunto de valor inestimável. As lendas estavam baseadas na verdade. Entretanto, apenas o lado criminal da questão foi examinado: os processos dos julgamentos, as torturas, as execuções.

A pesquisa mais completa sobre o assunto foi realizada por J. Russel, nas regiões de Sobre-Maas, no ano de 1877. A partir dessa data, muitos documentos desconhecidos foram encontrados. Outro estudioso, J. Melchior (1915), pesquisou Lumburgo e parte da Bélgica.

O fenômeno “montadores de bodes” possui dois aspectos: o criminal e o esotérico. A pesquisa sobre o assunto girou mais em torno do aspecto criminal. Provavelmente os pesquisadores do século (19) fecharam os olhos às heresias dos deuses antepassados, não mencionando também os nomes dos montadores de bodes, dos quais ainda restam alguns descendentes.

O Dr. J. Michels, observou que os montadores de bodes se chamavam entre si de companheiros. Isto é uma das características das seitas secretas. As atas dos processos, rico material documentário, estão dispersas entre os arquivos de Hasselt, Maastricht, Ahen, Dusseldorf, etc, abrangendo um território de aproximadamente 500Km², no qual operavam os bandos. Não existe entretanto um único trabalho sintetizando o assunto, o que não deixa de ser uma falha dos historiadores, considerando-se a importância do movimento, onde 860 homens, aproximadamente, foram executados.

Muitas perguntas ficaram sem respostas. Como foi possível a esses bandos sobreviverem por mais de 75 anos no século (18), longe das perseguições da igreja, que culminara com uma verdadeira caçada às bruxas ? O que ligava esses “criminosos” uns aos outros ? Por que os prisioneiros, mesmo quando submetidos às torturas mais terríveis negavam-se a falar?

Como explica que diversos membros importantes da sociedade participassem desse movimento ? Como foi possível a evolução dos bandos em seitas secretas, com caráter político nitidamente subversivo, contendo princípios revolucionários, implicando conceitos políticos da Europa desse tempo ? Até onde chegaram às convenções internacionais de alguns dos seus líderes ? O fato de que, nessas organizações, tenham sido encontrados elementos de influência germânica, não esclarece muito o problema.

Em uma carta datada de 1739, o filosofo Voltaire escreveu: “Estamos na importante cidade de Beringen e, amanhã, partiremos para o castelo de Ham, sem ter certeza de encontrar camas, portas ou janelas. Por aqui dizem que na região de Lumburgo, existem bandos de ladrões.”

Em um livro surgido em 1779, S.J.P Slemada menciona que um bando surgio em 1680 em Overmaas, formado de fugitivos da Europa Oriental (sob regime turco), compreendendo tártaros, egípcios ou sarracenos, como também foram chamados. Provavelmente eram ciganos.

A criminalidade importada encontrava terreno fértil no seio de um povo empobrecido pelas guerras constantes e em plena decadência econômica. Em 1725, foram enforcados vários montadores de bodes em Heik. Na Alemanha e na Bélgica os últimos adeptos dessa seita foram executados em 1794. Mas em 1880 foram registradas execuções em Heik e, nos Países Baixos, foi desfeito um bando de montadores de bodes, que tinha surgido em 1790, sob o regime francês.

É curioso notar que os bandos se extinguiram sob o regime francês. Ou os policiais franceses eram mais hábeis e mais organizados que os da Áustria ou então a ideologia dos franceses casava-se melhor com a dos montadores de bodes. Esse ponto ainda permanece obscuro.

A MÃO DE UM ENFORCADO

“Juro que me afasto de Deus, de seus santos e da mãe de Deus. Juro lealdade ao diabo. Se for preso, juro antes me deixar torturar que denunciar algum companheiro. Se for colocado em liberdade por traição, que meus companheiros me tratem como será tratado aquele que for preso por minha culpa.” Essa é a versão completa do juramento que um montador de bode prestava a seu líder. Em seguida, o neófito prometia que se comportaria como um cristão, o que deveria ser declarado sob torturas, para contradizer depois. Em Heerlen, no ano de 1762, foi incluído no juramento “dar aos pobres uma parte do lucros de todos os roubos.”

Para a cerimonia do juramento eram escolhidos lugares sagrados, como pequenas capelas ou a residência do líder. O nome do neófito era escrito em um livro , seguindo-se um ritual sério, sob luz de velas, em meio a uma imagem de Nossa Senhora, um crucifixo, uma caveira, hóstias consagradas e a mão morta de um enforcado. Esta geralmente não era mencionado com relação aos montadores de bodes, sendo usada mais em bruxarias. Depois do juramento, o neófito deveria quebrar a imagem de Cristo ou cuspir sobre a mesma.

As hótias recebiam o mesmo tratamento. Após a cerimônia, os homens (as mulheres não eram iniciadas) recebiam bebidas de alto teor alcoólico, embriagando-se com selvagens. Somente a partir de 1750 a Justiça começou a se interessar por tal juramento, bem como pelas cerimônias. O juramento implicava um pacto com o diabo. sse ato leva a supor que havia uma razão muito forte unindo esses homens. Seri possível entregar-se ao diabo apenas por algumas moedas, meio quilo de manteiga ou um pedaço de carne?

Nos julgamentos em Wellem, próximo de Hasset, em 1774, aparecerão confissões onde mulheres declararam cozinhar carnes e bolos com hóstia roubadas das igrejas. A carne e o bolo deveriam ficar vermelhos como sangue e eram saboreados em nome do diabo. Os pesquisadores procuraram uma relação entre os montadores de bodes com os waldenses e os templários, pois estes também usavam bode em seus rituais.

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