Capricórnio

Capricórnio. “Trata-se, portanto, de um fato mui digno de nota, a circunstância de a maior parte das religiões haver colocado na extrema altitude a sede do Todo Poderoso, pois encontraram Sua marca e as provas de Sua existência nessa ordem sideral que, por outro lado, proporcionou aos homens a ideia, o modelo primitivo e as primeiras verificações das leis naturais. As mãos se estendem em direção ao Céu; nele é que se refugiam os olhos, ou se perdem; ele mostra o dedo de um profeta ou de um consolador; do alto dele é que caem certas palavras, e que certos apelos de trombetas se farão ouvir.” – Paul Valéry

Por Hadés

A flecha lançada por Sagitário, alma que representa as vibrações da dança cósmica de Shiva, voa em direção ao seu alvo, simbolizado pelo signo de Capricórnio, no plano físico, o cimo da montanha, o lugar mais próximo do Céu. Este signo, o décimo a contar do signo de Áries e o mais elevado do Zodíaco, encontra-se em concordância com o simbolismo do zênite, o meio-dia, o ponto mais alto atingido pelo Sol em sua marcha diurna. No ciclo anual, reina do final de dezembro a janeiro, à entrada do inverno. Daí decorre um simbolismo: simultaneamente o de uma contração e o de um desvio. Capricórnio é o signo do poder sagrado, do brâmane, da casta mais elevada, a mais próxima de Deus segundo a terminologia hindu, encontrando-se esse poder sagrado na origem de todos os poderes temporais, pela sanção e legitimidade que lhe confere.

O signo de Capricórnio coincide com o inverno, momento no qual as forças de contração e cristalização se encontram em seu apogeu. No plano fisiológico, ele influencia o corpo humano, regendo os ossos (1). Em Ezequiel, o Espírito de Deus, soprando sobre os ossos, provoca a ressurreição. O espírito sempre esteve vinculado aos ossos em todas as civilizações tradicionais. O esqueleto, arquitetura do corpo humano, sustenta, mineraliza, abriga a medula óssea que fabrica um grande número de glóbulos essenciais, como os do sangue, por exemplo. No plano psíquico ou da alma, o signo de Capricórnio suscita os mesmos efeitos básicos, atribuindo aos que cedem ao seu ritmo hibernal, lento e paciente, a vontade, a discrição, a disciplina, a tenacidade, a obstinação, o método, a pontualidade, a exatidão, a força de caráter, a possibilidade de trabalhar sem esmorecimento em tarefas de importância primordial. Na ordem social, o signo de Capricórnio corresponde às estruturas que não possuem mais, no mundo moderno, a menor significação, já que vossa sociedade deixou de ser uma sociedade tradicional.

O signo de Capricórnio rege aqueles que estão próximos do Céu e que devem, graças aos seus conhecimentos ou aos seus poderes, aspirar a uma comunidade dotada de valores permanentes e de segurança: os membros da casta sacerdotal. Concede igualmente o poder político porquanto todo poder provém do Céu, constituindo a essência daquilo que não poderá ser perdido, a despeito dos cataclismos, ou seja, a Tradição.

Por esse motivo é que o signo de Capricórnio é o mais rico em dirigentes políticos, como Augusto, por exemplo, personificação dos césares, a quem um culto é prestado (observe-se a nítida distinção: “Daí a César o que é de César e a Deus o que é de Deus”). Essa distinção consagra o divórcio entre o poder temporal e o poder espiritual. Em nossa história contemporânea, cita-se Stálin, personificação da razão do Estado, ou então um revolucionário como Mão Tse-tung, que inaugura, em escala mundial, um novo poder e uma nova civilização. Sejam também lembrados diplomatas e hábeis mediadores, como um Mazarino, um Adenauer, um Pinay. Distinguem-se junto a esses nativos de Capricórnio os valores essenciais expressos por Saturno, que rege, um símbolo do tempo. Saturno é o supremo juiz dos esforços do homem e de suas ambições.

Capricórnio é o signo do elemento terra, signo cardeal, inaugura uma estação, entre nós o inverno. É duplo o simbolismo hibernal.

No plano espiritual, que há de ser sempre considerado em primeiro lugar, o signo em questão concerne a uma retirada, a do “homem dotado”, conforme os taoístas, elemento esotérico da antiga tradição chinesa, da qual o confucionismo representava a parte “visível” e que era caracterizada pelo astro que rege o signo de Capricórnio. Toda e qualquer retirada não constitui um desinteresse egoísta, mas o desejo de uma dedicação a tarefas que vão além do plano material e devem ser do mesmo separadas.

O taoísmo exprime essa retirada pelos dois trigramas que vêm a seguir:

___________________ Chien
___________________ o Criador
___________________ o Céu, e

___________________ Ken
________ _________ a Imobilização
________ _________ a Montanha

o que dá o hexagrama Touen: a retirada:



___________________ (Touen: a retirada).


________ ________
________ ________

O ser se retira (2) ante o avanço do poder das sombras, atingindo lentamente as trevas o seu auge. Esse ponto de vista supõe um desligamento interior. Os elementos temporais são abandonados a uma casta que não está mais em relação com o Céu; trata-se de uma tendência cósmica vinculada ao fim de um ciclo e contra o indivíduo há de se armar espiritualmente.

Outro hexagrama – “o mais jovem dos filhos do Céu e da Terra” (oque coincide com a natureza de Saturno e a mitologia grega, os filhos do Caos) representa a montanha e a imobilização. As forças saturianas, forças de imobilização e cristalização (o diamante, no plano material, a pedra filosofal, no plano alquímico, etc), culminam no trigrama Ken, repetido de sorte a obter-se “a montanha”.


________ _________ (Ken; a montanha)
________ _________
________ _________
________ _________
________ _________

Trata-se, ao mesmo tempo, do fim e do começo de todo e qualquer movimento (o fim, no plano material; o começo do plano espiritual). Cumpre ao indivíduo voltar-se para si mesmo, colimando a obtenção da paz profunda em seu interior. O domínio do eu proporciona a quietude necessária à apreensão das grandes leis do universo, visando a conformar com ele os próprios atos. No alto da montanha, essa calma, afastada das vicissitudes humanas, num perfeito retiro, limita os movimentos do corpo e permite seja aprendida a “paz celeste”.

Esquecer o próprio eu, os próprios pensamentos e emoções constitui o símbolo do fluxo sanguíneo. A conquista do esforço no sentido da calma e do domínio pode ser comparada ao fim da ascensão da montanha. A renúncia geral, indicada pela imobilização, nada mais é do que uma renúncia ao eu, de sorte a obter-se uma fusão com o outro “Eu”, o da beatitude celestial. Assim realiza o pensamento do Tão:

“Muda constantemente de o caminho.
Alterações, movimento sem interrupção,
Desdobrando-se pelos seis espaços vazios;
Subindo e descendo sem cessar …

(Yi-King, o livro das mutações.)

O MITO DE SATURNO QUE DEVORA SEUS FILHOS

O ensino vem do sacerdote desaparecerá do mesmo modo que o conselho que vem dos anciões. Ezequiel, VII, 26, Velho Testamento.

Conforme acabamos de ver, existe sempre uma “queda” nos influxos de Saturno, que rege o signo de Capricórnio. Raros são os nativos desse signo, por ele marcados e cuja ação seja apenas concernente ao plano material, que não sofram por causa disso. Carlos X, Luís Felipe, Kennedy, Hitler, é longa a lista dos poderosos que tinham esse astro em forte posição angular e padeceram por causa da queda do mesmo, no sentido de uma completa privação de seu poder temporal.

O que de fato ocorre hoje em dia é a circunstância de que pessoa alguma se encontra em seu lugar tradicional, aquele atribuído pelas castas da idade do bronze, que precedeu nossa idade de ferro (3). Existe uma ordem cósmica (rita) e o swadharma, noção hindu segundo a qual cada ser há de possuir a marca de uma atividade conforme à sua própria natureza, no momento atual, no extremo fim do ciclo, não possui mais qualquer vínculo com o real. O ofício ou mister, isto é, a função (mister, em latim, diz-se misterium, que significa função) atribuída a cada um, está reduzida pela uniformidade e pela negação da hierarquia. Segue-se que outras hierarquias, em primeiro lugar a do dinheiro, vieram substituir, em nossa civilização, o conhecimento e a repartição harmoniosa, fundadas nas aptidões próprias de cada indivíduo.

A queda é a translação que se efetua em conseqüência do afastamento do PRINCÍPIO; do meio dia – ponto do zênite indicado pelo auge da marcha diurna do Sol (ponto ocupado pelo signo de Capricórnio, na qualidade de signo mais elevado) – até a meia noite (no signo de Câncer), e a substituição desse signo pelo de Capricórnio. Existe, em conseqüência, perfeita analogia entre o princípio mais elevado e o mais baixo (4), que explica um retorno, uma inversão total da imagem e de seus valores, de um modo “não-humano”. Observamos o seguinte: o signo de Capricórnio é, tradicionalmente, o lugar do Zodíaco considerado como o de nascimento de Cristo, numa gruta onde é adorado por pastores. Cristo é simbolicamente representado pelo Sol de Capricórnio (Saturno), a brilhar no ponto mais elevado. O caminho da expiação de Cristo ocorrerá no mesmo ponto, o mais alto: no Calvário, no Gólgota. As montanhas e as elevações, os pontos mais “eminentes” (5) são regidos pelo signo de Capricórnio, o mais alto e elevado do Zodíaco, recordamos isso mais uma vez em benefício daqueles para os quais essas noções da astrologia tradicional ainda permanecem ignoradas.

Cumpre igualmente observar o seguinte: à medida que nos acercamos do fim do ciclo, mais evidentes são os efeitos da inversão e da analogia invertida que esta acarreta entre o ponto mais elevado e o ponto mais baixo, do qual se aproxima inelutavelmente a humanidade, em sua queda cósmica. Existem múltiplos exemplos disso. Os “guias” são, com muita freqüência, nativos de Capricórnio, representando o Sol, nesse signo, uma fogueira acesa no cimo da montanha, em seu ponto culminante, o que constitui uma analogia com a estrela que guiou os Reis Magos (Senhores) rumo ao lugar do nascimento de Cristo. Assim, Stálin, Mão e outros nasceram sob o signo de Capricórnio. O fato de tais guias darem forma exclusivamente a um pensamento materialista não poderia ser discutido por pessoa alguma porque ao ver dos mesmos o único universo que existe é o universo material. Nisso reside um outro sentido de Saturno (Carcer, em latim, significa encarceramento), ou seja, o aprisionamento na meteria e a busca de uma identidade absoluta entre o homem e essa matéria.

O planeta Plutão, cujos influxos invertidos são os das trevas, em sua significação simbólica de oposição ‘a luz, foi descoberto quando transitava pelo signo de Câncer, signo exatamente oposto ao de Capricórnio, o lugar mais “baixo” do Zodíaco, pois corresponde à meia-noite. Essa “descoberta”, nesse signo cardeal, exprime uma exata oposição aos valores de Capricórnio e se revela muito significativa.

Sob a influência de Plutão é que se reuniram num junco, em meio de um lago, os doze fundadores do partido comunista chinês (analogia invertida aos doze apóstolos de Cristo e à sua pregação às margens de um lago). À fuga do Egito e ao massacre dos inocentes correspondem, analogicamente e de forma invertida, os massacres de Xangai e a fuga de Mão para o Ienã. Ao Evangelho corresponde o “Pequeno Livro Vermelho” de Mão, e ao papel de Judas, o de Liao. Á ressurreição, vem corresponder a Revolução Cultural, e assim por diante. Não se trata, sem dúvida, de ver em Mão e em seu movimento plutoniano qualquer manifestação que o assemelha-se ao Anticristo, e estimaríamos que ninguém se equivocasse acerca de nosso pensamento. Trata-se de um movimento político de grande amplitude, eis tudo. No entanto, conforme afirmamos, à medida que nos aproximamos do ponto mais baixo e do final do ciclo, todos os movimentos políticos ou reformistas dotados de poderoso desenvolvimento apresentam e sempre apresentarão analogias como “aquele” que deve de algum modo levar à consagração desse ponto mais baixo e ao estabelecimento – por breve tempo, pois só poderá se apoiar numa matéria que houver atingido um grau absoluto de divisão e instabilidade – de um reino que há de ser a caricatura e, sob todos os aspectos, a analogia inversa de reinado de Cristo (6) e da Cidade de Deus.

O MITO DA MONTANHA

Foi durante a noite de Ad Kadir, no mês de Ramada, que a inspiração de Deus e sua Revelação foram comunicadas a Maomé, e a tradição muçulmana situa essa anunciação no momento em que o profeta estava deitado à entrada da caverna do monte Hira. “Ikra! Anunciai!”, ordenou-lhe um ser animado. E quando o profeta indagou: “Que devo anunciar?”, foi-lhe respondido: “Anunciai, em nome do teu Senhor, que criou o homem do sangue coagulado. Anunciai que o Senhor é o autor de todas as graças; Ele instruiu o homem com a pena; Ele ensinou ao homem aquilo que este ignorava.”

Não cessando os tormentos da dúvida ante a incompreensão com que essa mensagem foi acolhida, comunicada aos seus compatriotas no pátio do Caaba, em presença dos sacerdotes, mercadores e cameleiros que não queriam reconhecer nele, um simples condutor de caravanas, qualquer preeminência, Maomé decidiu subir ao cimo de um rochedo que dominava a cidade, e dele atirar-se. Nesse momento, no alto dessa elevação, recebeu a revelação da surata Abdula (a surata da Luz): “O Senhor jamais te abandonará porque deves anunciar sua verdade através de sua palavra.”

Encontramos esse mito da montanha em todas as tradições. A montanha constitui o símbolo por excelência do signo de Capricórnio. A sigla desse signo, a de uma cabra a subir em direção ao cimo do monte, exprime-o vigorosamente. O Meru, a montanha e o eixo em torno dos quais se efetuam os diferentes ciclos vinculados ao Zodíaco, e cujas revoluções astronômicas são o reflexo de nosso tempo físico, constituem os lugares sagrados, como ocorre com a montanha de Qâf, na tradição islâmica. No xintoísmo, a montanha sagrada é o Fuji-Yama, da qual desceu a deusa do Sol a fim de criar e “animar” seu povo. No alto do Monte Sinai Moisés recebeu as Tábuas da Lei. No Monte Morebe (MG), JHS recebeu a visita do “cavalheiro das idades”.

Pode-se perceber em todos os mitos, tão numerosos são eles a ponto de exigirem por si sós um estudo à parte, a analogia que apresentam com o lugar mais perto do Céu, evidentemente escolhido para nele ocorrer toda e qualquer Revelação espiritual destinada a opor um freio à marcha descendente do ciclo e ao afastamento do Princípio.

SATURNO: A SOLIDÃO CÓSMICA. A ASCESE

Saturno exprime a solidão num plano duplo: no plano físico, a solidão que ele acarreta é a do homem que atingiu a plenitude de seus poderes espirituais, podendo comunicar-se com os outros homens exclusivamente no plano da autoridade, que exclui qualquer forma de afetividade. Nenhum astro é tão “frio” como Saturno, que rege, através do seu domínio ou exaltação, os signos hibernais que se opõem aos luminosos (Aquário e Capricórnio, que se contrapõem a Leão e Câncer). Ele gravita em oposição ao calor humano (7).

No plano espiritual, seu despojamento é o de uma ascese. Esta reúne o conjunto de práticas que tendem à libertação do espírito através de sua preponderância, em todas as ocasiões, sobre o corpo e seus apetites. Oposto ao signo da nutrição – o de Câncer – , o signo de Capricórnio acarreta uma ascensão (na palavra ascensão encontramos a mesma raiz de Ascendere, ação de subir, ao passo que a palavra asctea provém do grego askésis, que significa meditação, havendo o vocabulário religioso passado de uma língua a outra). Ascese, portanto, conjuga meditação, ação de levar-se (rumo ao cimo da montanha ou, no corpo vital humano, no chakra Sahasrara) e recusa tudo quanto seja supérfluo. Com uma serpente como guirlanda sagrada, segurando o fogo (agni), ostentando uma coroa de crânios aos pescoço e calcando sua dança na dança cósmica de Shiva, o asceta solitário vagueia de um lado para outro, pisando, em seu ímpeto, todas as impurezas e todos os despojamentos. Não é por acaso que nosso tempo, possuído de ódio à virgindade tenta privar o homem moderno, através de toda sorte de artifícios, de uma solidão fecunda porque esta permitiria o acesso ao mundo espiritual. Pode-se afirmar a esse propósito que as grandes ordens monásticas do passado, no Ocidente cristão, que dependiam dos signos de Saturno e Capricórnio, em breve serão apenas uma lembrança desses tempos idos.

Caminhando passo a passo rumo ao alto da montanha, o que significa uma ascensão constante (mas também um esforço, e Saturno é o astro que preside a esse esforço, um esforço acarretado pelo sofrimento), o místico se afasta de todos os vínculos com a comunidade dos homens. A lei de toda e qualquer vida mística só poderá ser a da renúncia.

Sendo os domicílios de Saturno opostos à claridade solar e lunar, encerrado o ciclo da colheita, encontrando-se as sementes sepultadas no solo coberto, a palavra mística é que irá elevar seu vôo em meio da noite. Não se trata do furioso combate de Escorpião, signo noturno por excelência, mas do diálogo com o arcanjo, que provém do Céu e se posta no alto da montanha para encontrar-se com o discípulo. É a noite de Shiva, de que nos falam os místicos hindus:

Reine soberanamente essa noite indescritível de Shiva,
cuja radiosa essência brilha com seu fulgor próprio.
Nela é que são absorvidos o Sol e a Lua, assim como
Todas as outras (diderenciações), ao se deitarem.

Utpaladeva, IV, 22

Através de uma analogia inversa, a noite plutoniana (em seus influxos inversos que conduzem ao ponto mais baixo, à meia-noite), não é mais o alto da montanha, mas o cume do Monte Calvo. O ser não irá buscar o despojamento, mas uma caricatura dos verdadeiros “poderes”, que pertencem aos domínios do espiritual. Os poderes então procurados não são aqueles pedidos ao Céu, mas ao demônio, poderes materiais destinados a subverter a matéria. A palavra Sabat (que possui a mesma raiz da palavra sábado, dia de Saturno) provém do hebreu schabat, que significa repouso. O repouso e o silêncio da noite mística, analogicamente invertida, conduzem à desordem da reunião noturna dos feiticeiros, que se realiza à meia-noite, na ausência do Sol, que é uma representação simbólica da divindade. Líquidos infectos, produtos dos desejos humanos, são uma caricatura da ambrosia divina, símbolo do conhecimento universal que toma o lugar do conhecimento diferenciado e falível dos sentidos. Ao passo que, na experiência mística se esbate e se apaga a noite ilusória da maya, abrindo espaço à perpétua adoração de Shiva, o sabat é o momento de adoração do espírito do mal, que se exprime através de atos contra a natureza.

A noite mística é a derrota do mundo múltiplo no qual o ser se agita, buscando em vão o repouso, renovando seus desejos num processo ilusório. Sua caricatura, o sabat, não é mais do que, em essência, a busca do ponto mais baixo. É bem característico do espírito da maya, do mundo da ilusão, que esse fundir-se às potências inferiores se processe através de um vínculo antinômico com o repouso e o silêncio, mediante uma atividade puramente material.

Saturno que rege e exprime a “não atividade”. A paisagem hibernal e a terra coberta de gelo, desse astro, a noite, a claridade silenciosa da Lua, simbolizam o universo iluminado pelo esplendor de Deus. Atingido o cimo da montanha, torna-se impossível dele descer por um novo nascimento. O mito de Saturno, que devora os próprios filhos, encontra, então, seu significado através do derradeiro fim de toda e qualquer encarnação. Se a doutrina cristã, por exemplo, refere-se à “volta de Cristo”, esse retorno não consiste numa encarnação (sob o signo de Capricórnio), mas no radiante retorno “na glória e em majestade” – em união com o Princípio, retorno que se confunde com o “Dia do Juízo Final (8)”.

SATURNO E CAPRICÓRNIO: A DETERMINAÇÃO TEMPORAL

Os signos de Saturno e Capricórnio podem acarretar terríveis provações. Assim, no plano físico, se acaso se encontrarem em debilidade num tema de nascimento, sua ação conduzirá eventualmente à surdez, à paralisia, à impossibilidade de comunicar-se ou mover-se. O signo de Saturno assinala igualmente as prisões. No cárcere, o ser se encontra, por assim dizer, sepultado debaixo da montanha que o oprime. Por sua massa e sua gravidade, Saturno rege a mais dolorosa das limitações: a do tempo.

O signo de Câncer, em oposição ao de Capricórnio, governa o passado; o signo de Aquário, que se sucede ao domínio saturiano, rege o futuro. Fala-se em “massa crítica”. A mais impiedosa das férulas, no plano material, pode ser o destino de um nativo de Capricórnio. A tirania é sempre um padecimento saturiano. Por vezes todo um império – a exemplo da Rússia de Stálin – é aprisionado, sufocado, vivendo à margem do tempo.

No plano espiritual, a técnica saturiana de libertação convoca, como sempre, um mestre (Ad). Esse mestre, através de um gesto de libertação saturiana (madra) (9) fecha a “porta” dos sentidos de seus discípulos. Cumpre guiar os adeptos para a introversão, ato típico de Capricórnio e Saturno.

Todos os dedos obliteram os orifícios sensoriais. Os polegares apóiam-se nos ouvidos; os dedos médios comprimem as narinas; os indicadores fecham os olhos; os anulares e os auriculares recobrem a boca (10). Não mais se dispersando a energia vital através dos orifícios sensoriais, ela ascende até um chakra situado ao centro das sobrancelhas, à altura da fronte (bhru). Trata-se de obter uma perfuração, uma ruptura (bhrubheda). A energia da respiração ascende através de uma técnica apropriada, atingindo o ponto mais alto do cérebro (11).

O pensamento integrado e unificado jorra no momento em que o bhru é perfurado, num ponto de fulgurante brilho ( bindhu). A dualidade é dominada. O som de origem mística (anahata), um vibrar do coração, audível à altura dos ouvidos, nada tem em comum com a vinculação à matéria, dependendo igualmente de Saturno e Capricórnio.

Tudo isso ajuda-nos a compreender o astro que rege o signo de Capricórnio, sem dúvida o planeta menos conhecido do Zodíaco (simplesmente porque a maior parte das pessoas, ao passarem “ao lado de um tesouro, por assim dizer, dele não tomam conhecimento”, dizem os livros sagrados hindus, e negligenciam as suas possibilidades místicas). Diante do mundo saturiano, por conseguinte, deparam-se apenas duas posições: trabalhar pela exclusiva satisfação das necessidades materiais e do “eu”, separando-o do universo, aprofundando sem cessar o fosso entre o sujeito e o objeto, e nisso reside a couraça a que já nos referimos e que constitui as limitações das quais o ser não consegue se desembaraçar – o tempo, a determinação, o espaço, etc.; ou então, através de outra atitude, simbolizada pela chegada ao cimo da montanha, lugar onde não se pode sustentar qualquer forma material (ao passo que, ao sopé dessa montanha se encontra “a base” mais ampla e mais “fácil”), o ser vai além de todas as limitações, repele-as e se desliga da realidade dual, unindo-se à Consciência que jamais abandonou.

A QUEDA CÓSMICA E A NOÇÃO DE TEMPO

Sabemos que o tempo, em virtude dos diferentes ciclos, não possui o mesmo valor objetivo. Em conseqüência do relacionamento entre o microcosmo e o macrocosmo, a infânica corresponde à idade do ouro; a maturidade, à do bronze; a velhice, à do ferro: o Kali-Yuga, ou a “idade sombria”, o “poder das trevas” ou, ainda “o grande inverno astrológico”. No plano do Zodíaco, essa última traduz-se pela predominância das Casa VII e IV, que assinalam o poente, e a meia-noite (o fim da vida) e os signos que se encontram então vinculados, o da Balança e o de Câncer; assinala, igualmente, no plano coletivo, devido à importância de Saturno e da Lua – astros que marcam, em todos os temas, a derradeira parte da vida – o termo do ciclo.

A preponderância de Saturno sobre o acaso (é exaltado no signo da Balança) explica a aceleração imprimida a todas as massas, visto que se pode qualificá-la como reunião de elementos distintos ou conjunto de coisas que constituem um corpo. Sob a modalidade de matéria enquanto substância que não possui forma definida, a massa é regida por Saturno, na astrologia, ao passo que as massas (os conjuntos que constituem os corpos) dependem da Lua, em sua maioria, cujo domínio, em Câncer, se opôe ao signo de Capricórnio. Toda massa implica um fim e um choque, a exemplo de um fragmento de rocha que se destaca de uma montanha. Sob esse aspecto é que, por exemplo, o signo de Capricórnio e Saturno são sutilmente descritos no sonho de Daniel.

Numerosas aplicações podem ser retiradas desses dados, no plano astrológico. Citaremos apenas uma, a que afeta a “massa crítica”, a menor massa necessária ao desencadear espontâneo e à manutenção de uma reação em cadeia, num corpo submetido à fissão. Os bons aspectos entre Saturno e Plutão, o significador geral das forças atômicas, permitirão controlar (durante algum tempo) essa massa crítica. Os maus aspectos acarretam o oposto a isso.

A gravidade, a força que atrai os corpos em direção ao centro da Terra, é regida por Saturno e pela Lua. Um corpo que cai no vácuo, estando unicamente sujeito a tal ação, desloca-se num movimento uniformemente acelerado. Nisso tornamos a encontrar os efeitos do afastamento do princípio, cujas conseqüências, no plano material e anímico, afetam todo o nosso planeta (12).

À aceleração desse movimento corresponde uma aceleração e uma “contração” do tempo. Não é por acaso que este seja medido de maneira cada vez mais requintada (relógios atômicos, etc). Segue-se que o final do ciclo está fadado a evolver mais e mais rapidamente, num movimento de aceleração crescente, sobretudo depois de Urano haver destronado Saturno no domínio do signo de Aquário, nele roubando-lhe o primeiro lugar.

Os efeitos dessa aceleração se destacam de maneira não sensível na simples vida quotidiana que parece ocioso enumerá-lo. Isso, porém, será acentuado até atingir-se um ponto de parada, que representará, em suma, a marcha da Manifestação até o auge da queda, no qual os signos de Capricórnio e de Câncer (oposto) desempenharão um papel ponderante na história das civilizações.

(1) Quebrados seus ossos, uma pessoa ficará impossibilitada de se deslocar. Daí a tendência para elevar-se através de uma provação, de exigir um esforço constante. No plano social, sem os princípio de hierarquia simbolizados por Saturno, um sentido de “queda” é significado pelo astro (estando se signo situado no ponto mais elevado do Zodíaco): é impossível a uma civilização elevar-se sem quebrar os ossos”.

(2) No plano da vida quotidiana, analogicamente vinculado ao Céu, a idade de Saturno (na qual são desfrutados os produtos substanciais de seu trabalho passado, e que corresponde a uma imobilização, a uma descarga das atividades puramente temporais em proveito de novas possibilidades) é a do retiro.

(3) A idade do ouro e a idade da prata, por sua incorruptibilidade, não possuem castas de espécie alguma. Não estando alterado o acesso ao princípio, não era necessário o ensino do conhecimento pelas castas. As castas só surgiram no momento em que existiu uma fusão, maneira simbólica de designar uma “mistura” entre os homens.

(4) O homem moderno só atinge o ponto mais elevado (o sistema solar) e o ponto mais baixo (o sistema atômico) de maneira “física”. As perturbações que ele lhes acarreta ou pretende acarretar-lhes só poderão ser constituídas, por esse motivo, de um desequilíbrio material. Faz parte da natureza da ciência moderna permanecer restrita ao plano material; o homem contemporâneo nem mesmo suspeita de que possam existir outras realizações e uma liberação antinômica à “libertação da matéria”.

(5) A palavra eminente deriva do latim, eminens, particípio presente de eminere, elevar-se. Compreende-se que o signo de Capricórnio seja o último signo cardeal e, ao mesmo tempo, aquele que coincide com todas as eminências. É o signo do sumo poder religioso, temporal e espiritual. (Na igreja católica, um cardeal pe tratado por “Vossa Eminência”.) Tais aproximações mostram o vínculo que ainda existe, embora oculto, entre a religião, a astrologia e a tradição.

(6) Isso consiste em afirmar que à palavra de Cristo “Meu reino não é deste mundo” (isto é, além da matéria) corresponderá, em virtude dessa analogia invertida, uma palavra (um ensinamento) que só serão “deste mundo” os que o acompanham em sua queda final.

(7) “Mulher, entre mim e ti nada existe em comum”, disse Cristo a sua Mãe.

(8) Cumpre igualmente observar que a Arca pousa no alto de um monte, único lugar preservado da cólera divina e das águas do Dilúvio (o signo de Câncer, oposto ao de Capricórnio).

(9) O Kararuddhadrgastra.

(10) Observa-se que segundo as leis da correspondência entre o microcosmo e o macrocosmo, o dedo médio, o de Saturno, o que mais se eleva na mão, corresponde ao cimo da montanha.

(11) O alto da cabeça é analogicamente representado pela exaltação de Marte, astro que rege o signo de Áries (que governa a cabeça) no signo de Capricórnio. No plano temporal, corresponde à coroa concedida e regida por Saturno, a coroa luminosa, atributo místico dos santos. E, no GOM, corresponde a coroa do “Rei do Mundo”.

(12) O aumento cada vez maior das trevas igualmente uma cegueira mais e mais acentuada. Isso nos explica não só o pouco interesse das “elites” modernas pelo pensamento filosófico esotérico, como também sua quase total inaptidão para o despertar, e também o avanço do materialismo, que representa, no fundo, o único “pensamento” contemporâneo, se é lícito assim dominá-lo.

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